A Medicina de Dr. House

O seriado Dr. House, exibido pelo canal Universal na TV a cabo e também disponível no Netflix, apresenta um médico polêmico, ótimo em diagnósticos, mas de péssimo relacionamento com outras pessoas ou mesmo com seus pacientes. O personagem é pautado pelo seu vício em analgésicos fortes, chegando mesmo a furtá-los da farmácia do hospital em alguns episódios. Com os colegas mantém um convívio pautado pelo desprezo por alguns ou com características obsessivas por outros.

O ator Hugh Laurie construiu realmente um personagem fascinante, um tipo de ranzinza que aprendemos a gostar por ver que na verdade trata-se de uma pessoa extremamente sofrida, que carrega vários tipos de neuroses e traumas durante a série. Na sexta temporada, o médico se submete à terapia, chegando a internar-se para descobrir o ser humano sensível que havia dentro dele. Mesmo aclamada e premiada, é preciso lembrar que Dr. House é uma série e peca por não mostrar a realidade dos médicos e dos hospitais, tanto no Brasil quanto nos EUA.

Dentre essas incongruências entre a ficção e a realidade, estão:

Conhecimento técnico específico

Certamente para economizar no cachê dos figurantes, os atores médicos principais fazem de tudo, desde a anamnese e exame físico até os exames mais sofisticados e especializados, tais como ultrassons, tomografias ou ressonâncias magnéticas, assim como também as cirurgias de qualquer tipo ou exames anatomopatológicos.

O grau de conhecimento técnico envolvido nas diversas áreas da medicina impede que mesmo um gênio as domine totalmente. O bom clínico entretanto sabe quais  exames ele deve indicar e em que ordem de forma a minimizar custos e agressão ao paciente.

Tratamento ou diagnóstico inadequado 

No seriado é comum os médicos iniciarem tratamento, inclusive cirurgia, para doenças raras ou complexas logo após a suposição clínica, antes mesmo de pedirem um teste confirmatório. Em geral, os médicos não utilizam tratamento empírico a não ser em casos bem definidos, específicos, frente a suspeita bem consistente ou quando se está diante de duas hipóteses sendo uma delas tratável com medicamentos e a outra sem tratamento.

Tal comportamento no seriado parece que se deve à necessidade de mostrar os médicos como ratos dentre de um labirinto com vários caminhos que não dão em nada, para ganhar tempo antes do Dr. House aparecer com a resposta final.

Os métodos de imagem modernos, tais como ultrassonografia, tomografia computadorizada, ressonância magnética e cintilografia substituíram em grande parte as cirurgias exploradoras muito utilizadas há 30 anos atrás. Além disso, estes métodos permitem realizar biópsias guiadas por imagem para obter material diagnóstico com grande segurança.

Trabalho em equipe

Nenhuma equipe real trabalharia com alguém tão temperamental e agressivo quanto o Dr. House por tanto tempo. Ele se parece mais com um médico da década de 50 ou 60 trazido para o século XXI, onde a interação e integração entre colegas é uma realidade e uma necessidade. Na verdade, se ele fosse um médico real, provavelmente já teria sido despedido. Vários de nossos colegas mais brilhantes se pautam pela modéstia, caráter exemplar e pela educação no trato dos pacientes e colegas.

Ética da profissão

Toda clínica e hospital possui uma comissão de ética para fiscalizar e investigar possíveis desvios de conduta. Quando um médico viciado em drogas, como o Dr. House, é descoberto, deve ser imediatamente afastado das funções e direcionado para tratamento especializado. Além disso, o paciente é a razão de ser do médico, sendo que o código de ética afirma em seus primeiros artigos:

  • I – A Medicina  é uma profissão a serviço da saúde do ser humano e da coletividade e será exercida sem discriminação de nenhuma natureza
  • II – O alvo de toda a atenção do médico é a saúde do ser humano, em benefício da qual deverá agir com o máximo de zelo e o melhor de sua capacidade profissional.

Várias outras questões da série Dr. House entendemos serem liberdade poética para prender a atenção do público que, entretanto, não deve considerá-la como espelho da realidade. O seriado é divertido, mas não retrata o dia a dia de um hospital ou clínica, que se pautam pelo compromisso com o paciente, diagnóstico preciso e tratamento adequado, objetivando oferecer excelência nos serviços prestados.

A Medicina de Dr. House
Dr. Rogerio Augusto Pinto da Silva - Especialista em Radiologia e Diretor da Clínica CEU

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